As Origens do Futebol

As Origens do Futebol

Hoje em dia, o futebol é o esporte mais popular do mundo. Em praticamente todos os países do mundo ele é praticado e possui ligas e confederações. São bilhões de torcedores em todo o mundo, que torcem pelos seus clubes e por suas seleções nacionais. O evento esportivo mais lucrativo e esperado do mundo é a Copa do Mundo, ocorrida de quatro em quatro anos e acompanhada por mais da metade da população mundial. Esse esporte mundial movimenta quantias imensuráveis de dólares anualmente, devido a contratos televisivos e patrocínios, assim como devido a transação de jogadores. Porém, como tudo, o Futebol teve a sua origem, e teve os seus primeiros anos. Neste trabalho pretendemos mostrar o surgimento do Futebol na Inglaterra do século XIX, e também apresentar o seu processo de massificação na Europa. Além disso, mostraremos o período do surgimento do Futebol no Brasil, país mais reconhecido internacionalmente devido à habilidade e paixão futebolística de seu povo. Faremos um trabalho sobre a origem daquele que podemos chamar de o esporte do Século XX.

As origens do futebol que conhecemos

O futebol, como esporte moderno, foi criado na Inglaterra do século XIX. Entretanto, muitas pesquisas mostram que o jogo de bola, tanto praticado com os pés como com as mãos é praticado bem anteriormente ao século XIX. Alguns estudiosos dizem que a origem deste esporte está na China, há muitos séculos atrás. Dizem que um “esporte” muito parecido com o futebol era praticado por soldados do Imperador Xeng Ti 25 séculos A.C.. A bola era de pele de animal recheada com ferragens . Colocamos o termo esporte entre aspas pois, como sabemos tal palavra só pode ser empregada após o século XIX, e as atividades físicas do período anterior ao contemporâneo podiam ser consideradas mais como rituais religiosos ou como preparação militar do que esporte.

Muitos pesquisadores dizem também que o futebol tem origem em um “esporte” praticado na Itália medieval. “Esporte” aliás, que existe até hoje e é praticado anualmente na cidade de Florença. Estamos falando do Calcio. Tal esporte consiste de um jogo entre duas equipes que, em um campo de terra têm que atravessar uma bola até uma área ao final do campo adversário. O jogo pode ser caracterizado como muito violento, pois os ataques físicos entre os jogadores dos dois times são constantes e permitidos. Os italianos acreditam que a origem do futebol está no Calcio, tanto que, na Itália, o futebol como conhecemos é chamado de Gioco Calcio. Assim como o Calcio, na Inglaterra, um jogo era praticado desde mais ou menos o ano de 1300: o Hurling. Tal jogo tinha características muito parecidas com o Calcio, e era também muito violento.

O Calcio tem características muito parecidas com um esporte que surge na Inglaterra ao mesmo tempo que o futebol: o Rugby. Aliás, podemos dizer que o futebol e o rugby tem uma raiz comum, pois são muito parecidos, e que se dividiram na metade do século XIX na Inglaterra, devido a dissidências na questões das regras entre os participantes. Enquanto o Rugby pode ser jogado com as mão e com os pés, o Football — como o próprio nome diz— só pode ser jogado com os pés, sendo apenas o Keeper que pode pegar a bola com as mãos.

Entretanto, podemos dizer que desde os mais remotos tempos o homem e a sua sociedade sempre praticaram jogos, ou para se divertirem entre a comunidade, ou como ritual religioso. Tais praticas são aspectos das mais variadas culturas ao redor de todo o mundo. Podemos dizer então que o Futebol nasceu daí. Porém esses jogos não tinham um nome definido e variavam de regiões e regiões da Inglaterra, da Europa e do Mundo. Podemos dizer que, na Inglaterra, berço do Futebol moderno, esses jogos eram praticados pelas camadas populares, que vinham praticando essas atividades culturais há várias gerações. Talvez elas não fossem igual ao Futebol, ao Rugby, mas tinham um objetivo cultural de diversão e ligamento entre os membros da comunidade. Como sabemos, a aristocracia não praticava tais jogos, pois provavelmente os achavam como atos de barbárie, praticados por pessoas sem cultura, além de serem muito violentos. A aristocracia preferia praticar outros jogos, como a equitação, a caça e a esgrima. Esses jogos eram chamados, na Inglaterra do século XVIII e XIX de esportes, e os esportes que conhecemos hoje( ou algo parecido com eles) eram chamados de passatempo .

Esses jogos populares, no século XIX, começaram a ser praticados, em seus horários livres, pelos alunos das escolas da aristocracia e da alta burguesia inglesa. O colégio de Rugby talvez seja a mais famosa dessas escolas, pois dele saíram as regras do Rugby. O Rugby e o Football eram praticados pelos alunos deste colégio, fazendo com que os diretores dos colégios proibissem a prática dessas atividades, devido ao fato delas serem populares, violentas e “bárbaras”. De nada adiantou tal proibição, pois os alunos continuavam praticando esses esportes. Como a repressão a esses jogos não deu muito certo, as questões tiveram que ser resolvidas de outra forma. Já que não parariam de ser praticadas a melhor maneira era de que tais jogos fossem regulamentados. Daí começaram a surgir as regras nesses jogos, criando-se assim as regras do Football e do Rugby, além de outros jogos.

Porém, tais jogos haviam sido regulamentados apenas nas escolas da elite inglesa. Era preciso regulamentar esses jogos também entre as classes mais “baixas” da sociedade inglesa. O início do século XIX foi o período do ápice da primeira Revolução Industrial na Inglaterra. A classe operária já estava praticamente consolidada e já começava a ter a sua consciência de classe. A classe operária inglesa também praticava esses jogos, principalmente nos horários livres que foram conquistando no processo de conscientização de classe e do movimento operário sindical. Porém, como sabemos, tais jogos eram muito violentos e não tinham regras algumas as vezes. Tal violência do esporte fazia com que a produção do operariado caísse, devido a lesões e cansaços, prejudicando assim o lucro dos grandes patrões da burguesia industrial. Era preciso, assim como foi feito nas escolas, regulamentar esses jogos, para torná-los menos violentos e trazê-los para dentro da esfera do controle do Estado. Tal regulamentação do Football foi expandida, com a ajuda do Estado, para toda a sociedade inglesa. A classe burguesa industrial triunfou, e suas regulamentações esportivas se massificaram, tornado o futebol em um esporte de massa. Além disso, ” os burgueses descobriram o futebol como meio de despolitização dos trabalhadores na década de 1860.(…) O objetivo era bem claro. Eles precisavam manter os operários à margem da atividade política dentro de suas organizações de classe” . Podemos perceber que a regulamentação das regras do Futebol, e outros jogos, veio em um momento histórico onde o operariado começa a reivindicar os seus direitos e começavam a se tornar uma classe política. Nada melhor para a burguesia industrial do que controlar, a partir da criação de regras, um jogo em que a maioria proletária praticava.

Geralmente eram também operários das fábricas as quais os times representavam, e também a família e a comunidade desses jogadores. É nesse período que começam a surgir as grandes rivalidades entre os diferentes times das cidades da Grã Bretanha. É nesse momento que surgem as disputas entre o Manchester City e o Manchester United, o Glasgow Celtic e o Glasgow Rangers, e o Arsenal, o Chelsea e o Cristal Palace em Londres . Como podemos perceber, inicia-se neste momento a identificação por parte da população pelos clubes de futebol, seja por razões comunitárias, culturais e até mesmo religiosas. Tal massificação do futebol fez com que o historiador inglês Eric Hobsbawn chamasse o jogo de futebol como “a religião leiga da classe operária”.

Uma questão muito interessante a ser discutida é de que como o futebol conseguiu tanto sucesso entre as massas, e até mesmo entre todas as classes? Qual o motivo de toda essa paixão pelo esporte surgida na Segunda metade do século XIX? Talvez o historiador Nicolau Sevcenko possa nos responder essa pergunta.

“Assim, num curtíssimo espaço de tempo, o futebol conquistou por completo toda a população trabalhadora inglesa e, em breve, conquistaria a do mundo inteiro. Como entender esse frenesi, esse poder irresistível de sedução, essa difusão epidêmica inelutável? Como vimos, parte da explicação está nas cidades, parte no próprio futebol. A extraordinária expansão das cidades se deu, como vimos, a partir da Revolução Científico-Tecnológica, pela multiplicação acelerada da massa trabalhadora que para elas acorreu em sucessivas e gigantescas ondas migratórias. Nas metrópoles assim surgidas, ninguém tinha raízes ou tradições, todos vinham de diferentes partes do território nacional ou do mundo. Na sua busca de novos traços de identidade e de solidariedade coletiva, de novas bases emocionais de coesão que substituíssem as comunidades e os laços de parentesco que cada um deixou ao emigrar, essas pessoas se vêem atraídas, dragadas para a paixão futebolística que imana estranhos, os faz comungarem ideais, objetivos e sonhos, consolida gigantescas famílias vestindo as mesmas cores.”

Como vemos, o futebol se tornou uma forma de identificação para as massas trabalhadoras das grandes cidades inglesas. Os times se tornaram muito mais do que times, se tornaram um objeto em que as pessoas encontravam o seu igual, encontravam seus objetivos e sonhos, tão arraigados pelo trabalho árduo nas fábricas durante a semana. O futebol faz com que todos saiam ganhando. Tanto as grandes massas, que encontram nele certa identidade, quanto pela burguesia, que o utiliza para regulamentar a sociedade e a massa proletária.

O século XIX pode ser considerado o século do imperialismo inglês pelo mundo. Assim como o comércio inglês se expandiu pelo mundo, os seus aspectos culturais também. E com o futebol não foi diferente.

As origens do futebol no Brasil

Canarinho

“Assim é que, no Brasil, recebemos, do berço, o nome, a religião e o clube de futebol, que, juntamente com o sexo e o estado civil, nos acompaharão pelo mundo social que acabamos de entrar” . Como sabemos, o futebol está inserido na sociedade brasileira e também dentro de cada brasileiro. Mesmo daquele que não gosta do esporte tem um time que prefere mais, e sempre torce para a seleção nacional na Copa do Mundo. Desde pequeno todo cidadão brasileiro conhece o futebol, e começa a se inteirar com ele. Mas tudo isso tem uma origem.

Muito se discute, principalmente na historiografia atual, sobre o surgimento do Football no Brasil. A tese “oficial” é aquela que coloca o filho de ingleses Charles Willian Miller como o patriarca do futebol brasileiro. Em 1894, Miller teria trazido da Inglaterra, onde passara 10 anos estudando, uma bola de futebol, e algumas camisas, e ensinou os sócios do São Paulo Atletic Club (SPAC) a praticarem tal jogo tão difundido na Bretanha. Outras fontes dizem que o Football chegou ao Brasil com marinheiros ingleses em 1872, no Rio de Janeiro . Outros dizem que foram os trabalhadores ingleses das fábricas de São Paulo que trouxeram o futebol. Recentes estudos nos mostraram que o futebol já era praticado no Brasil em diversos colégios pelo Brasil. Em 1880 já se praticava o esporte no colégio São Luiz, em Itu; em 1886 se praticava no colégio Anchieta, no Rio de Janeiro; também no Rio, em 1892, se praticava o “esporte bretão” no colégio Pedro II. A data real do aparecimento do futebol no Brasil realmente não interessa, o que interessa é o caminho que o esporte seguiu no Brasil em seus primeiros anos. Segundo Nicolau Sevcenko o futebol se difundiu por dois caminhos: “um foi dos trabalhadores das estradas de ferro, que deram origem às várzeas, o outro foi através dos clubes ingleses que introduziram o esporte dentre os grupos de elite.” . Podemos dizer que Sevcenko tem certa razão. Realmente, podemos perceber, que o futebol no Brasil seguiu estes dois caminhos, mas tais caminhos também se cruzavam. Miller apresentou o futebol à elite paulista, e a sua aceitação foi rápida pelos clubes das diferentes comunidades. Ao mesmo tempo que a elite começava a praticar esse esporte, o futebol se desenvolvia entre a classe operária, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. O futebol se expandiu rapidamente pelo Brasil. Os diversos times dos operários das fábricas iam surgindo na várzea paulista, e os clubes iam adotando o esporte em seus quadros.

Segundo Waldenyr Caldas “o primeiro grande jogo, aquele que empolgou a platéia, foi realizado em São Paulo, em 1899, na presença de sessenta torcedores(…). de um lado, estava o time formado peos funcionários da empresa Nobling; do outro, os ingleses que trabalhavam na Companhia de Gás, da Estrada de Ferro e do Banco (inglês). No final, um resultado sem novidades: vitória dos ingleses por 1 x 0. . Os clubes de elite começaram a se organizar e a fazer partidas de futebol entre si. Os primeiros amistosos entre clubes surgiram em São Paulo nos anos de 1899/1900, com os clubes do São Paulo Athletic,  Germânia(atual E.C. Pinheiros) , Mackenzie e a Internacional, todos com sócios da elite paulistana e de várias origens , como Americanos, Ingleses e Alemães. A partir daí, em 1902, surgiu a Liga Paulista de Football, com apenas cinco clubes, os quatro já mostrados acima mais o C. A. Paulistano. A liga organizou o primeiro campeonato paulista de futebol, cujo campeão seria o São Paulo Athletic que possuía Charles Miller, o responsável pelo futebol no Brasil.

Ao mesmo tempo que os clubes de elite se organizaram e montaram campeonatos, podemos afirmar que os clubes da várzea, formados por operários das diversas fábricas que se expandiam nas crescentes Rio de Janeiro e São Paulo, começaram a organizar campeonatos entre si também. Porém, as fontes documentais desses jogos, e até mesmo desses “scratches” praticamente não existem, devido a sua característica de serem times pobres. Ao longo do início do século XX irão surgir diversos clubes formados por operários das fábricas no Rio e em São Paulo. exemplos são: o Bangu Atletic Club, no Rio de Janeiro; e os famosos Sport Club Corinthians Paulista e o Palestra Itália, em São Paulo. porém, diversos outros clubes de bairros operários existiam espalhados pelas diversas várzeas da cidade.

No Brasil, segundo Caldas, o Estado não se opôs a prática do Futebol nos colégios, nem nos locais públicos. Assim fez também a Igreja, que chegava a incentivar a prática do esporte em seus colégios . Isso provavelmente ocorreu, pois a experiência inglesa de proibição do esporte não havia dado certo, além do que, o esporte chegou ao Brasil com todas as suas regras já determinadas, não sendo motivo de preocupação para o Estado.

As grandes ligas, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo continuaram elitizadas até pelo menos a metade da Segunda década do século XX. Entretanto, com a grande difusão que o Football tomou no Brasil, conquistando as massas, as ligas tiveram que aceitar times vindos da várzea em seus quadros.

O esporte havia se popularizado de tal forma, que agora não era, como nunca foi tanto, um esporte das elites. Segundo Sevcenko “tal como Londres, a cidade de São Paulo ficou até o final dos anos 20 dividida entre três agremiações arquinimigas, o Paulistano, o Palestra, e o Corinthians. Cada final de Campeonato era como uma guerra civil na cidade” . Os contos de Alcantara Machado ilustram isso.

Com o tempo, os clubes de elite foram se desligando do futebol, principalmente com a popularização do esporte. Hoje em dia, talvez o único clube que era de elite e que ainda tem o futebol como seu esporte principal seja o Fluminense Football Club do Rio de Janeiro. Com a profissionalização do futebol brasileiro, em 1933, muitos clubes de elite deixaram de praticá-lo em campeonatos oficiais, a exemplo do Clube Atlético Paulistano, maior campeão do período do amadorismo no futebol paulista, com 11 títulos.

Conclusão

Como vimos neste trabalho, o Futebol, surgido no século XIX, teve todo um processo de regulamentação para se tornar o que é hoje. Vimos como o esporte foi domesticado na Inglaterra do século XIX. Também vimos que tal esporte é parte essencial na construção da identidade das pessoas e dos diversos grupos. A exemplo disso hoje vemos as enormes torcidas dos clubes espalhadas pelo mundo que se juntam, e de certa forma se identificam, formando um grupo social. Infelizmente, como é comum entre diferentes grupos identificados com objetos diferentes, a situação descamba para a violência. Claro, que tal violência não tem origem apenas na rivalidade futebolística, mas sim em outros fatores, como os problemas sociais, étnicos e até religiosos. Apesar do Futebol ter sido regulamentado, e hoje ser praticado em grandes campeonatos nacionais com regras especificadas por um órgão mundial(FIFA), pensamos que muito daquele esporte popular, original, onde o intuito era a diversão, sem muitas regras, ainda existe. Não uma pessoa sequer que, quando pratica o futebol com os amigos, ou na escola, ou no campo do bairro que muda as regras do jogo e faz as próprias regras que o grupo de jogadores determinada. Quantas vezes não jogamos sem ninguém apitando o jogo; em jogos em que as demarcações do campo não são as mesmas do futebol “oficial”. Esse espírito popular, tradicional do futebol ainda existe, em qualquer lugar do mundo.

Bibliografia

  • CALDAS, Waldenyr. O pontapé inicial. Contribuição à memória do futebol brasileiro. Tese de livre doscência. São Paulo: ECA/USP, 1988.
  • HOBSBAWN, Eric.  A Era dos Impérios. 1875-1914.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
  • RAMOS, Roberto. Futebol: ideologia do poder. Petrópolis: Vozes, 1984.
  • SEVCENKO, Nicolau.  “Futebol, metrópoles e desatinos” in: Revista USP: Dossiê Futebol. Número 22, 1994.
  • VOGEL, Arno. “O momento feliz. Reflexões sobre o futebol e o ethos nacional” in: DAMATTA, Roberto (org.) . Universo do futebol. Esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke.
  • Autoria: Marcos Angiole Ferreira de Almeida
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